2020, o ano do adeus a Pedro Casaldáliga, defensor dos pobres e excluídos do Araguaia

Por Diário de Cuiaba 11/01/2021 - 12:38 hs

Uma cova na terra arenosa ao lado do azul do Rio Araguaia, que passa ficando em São Félix do Araguaia (1.200 km a Nordeste de Cuiabá). Sobre ela, uma cruz de madeira grafada com os versos cristãos do bispo emérito da prelazia do município, Dom Pedro Casaldáliga.

Simples na vida e após fechar os olhos para sempre. Figura de expressão mundial, líder da Igreja Progressista, defensor dos índios e excluídos, poeta, escritor, pensador e, acima de tudo, pastor do cristianismo.

Essa pode ser a síntese do bispo catalão, que dedicou sua vida ao Vale do Araguaia e a ele entregou seu corpo em 8 de agosto, na Santa Casa de Batatais, interior paulista, depois de longa batalha contra o Mal de Parkinson, a labirintite e as sequelas de uma queda que o prendeu a uma cadeira de rodas.

Espanhol de Balsareny, província de Barcelona, nascido em 16 de fevereiro de 1928, o padre claretiano Pere Casaldàliga i Pla – o Pedro – chegou ao Araguaia em 1970, designado para administrar a Prelazia de São Félix do Araguaia.

Em 27 de agosto de 1971, foi nomeado bispo prelado pelo papa Paulo VI e sagrado bispo por Dom Tomás Balduíno, bispo da Diocese de Goiás (GO). Em seguida, assumiu a Prelazia e a Catedral Prelatícia Nossa Senhora da Assunção, naquela cidade. A comunidade acadêmica o reverenciou.

Foi contemplado com os títulos de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Campinas, Pontifícia Universidade Católica de Goiás e pela Universidade Federal de Mato Grosso – o primeiro a receber tal distinção naquela universidade.

"Para descansar eu quero apenas esta cruz de pau, com chuva e sol", diz inscrição em placa colocada aos pé de cruz, um dia após o sepultamento. São Félix do Araguaia, uma avenida reverencia seu nome. Artistas, pensadores e políticos do Brasil inteiro o procuravam.Sua trajetória missionária e seu grito pelos excluídos são de domínio público.

Sua voz nunca se calou nem nos anos de chumbo da ditadura, nem diante do assassinato do padre João Bosco Penido Burnier, ao seu lado. Enquanto bispo, antes de ser alcançado pela expulsória canônica aos 75 anos, Pedro carregava sobre os ombros todas as demandas de seus fiéis e também dos que professam outros credos ou nem mesmo acreditam na espiritualidade.

Sua vida simples, numa modesta casa sem muros, se fundia e se confundia com o Vale do Araguaia. Sua morte não significa o fim de seus ideais, que são levados adiante por outros religiosos e seguidores de seus ensinamentos.Índios de diversas etnias carregaram seu caixão.

O sepultamento cumpriu sua vontade: queria repousar ao lado dos que em vida foram excluídos, e fazer de seu epitáfio mais um grito em defesa da igualdade social que foi uma de suas bandeiras.

 

Uma cova simples num antigo cemitério onde eram sepultados peões, prostitutas e índios, nos primórdios da colonização de São Félix do Araguaia foi o local por ele escolhido para sua última morada. Em silêncio reverente, o Rio Araguaia passa ficando ao lado porque um não pode ficar distante do outro.