Escritora carioca finda biografia de Pedro Casaldáliga e busca recursos para publicar

Por Rd News/Keka Werneck 22/11/2018 - 03:24 hs

A jornalista carioca Ana Helena Tavares, 33 anos, estava escrevendo um livro sobre a ditadura militar brasileira, em 2010, quando, depois de entrevistar nomes de diversos segmentos, como jurídico e político, procurou fontes da igreja católica que pudessem tratar do assunto. Em setembro de 2012, deparou-se com um ícone da resistência ao poder militar, dom Pedro Casaldáliga.

O bispo espanhol há quase uma década se mudou para São Félix do Araguaia (a 1.173 km de Cuiabá), onde mora e escreve uma história de apoio aos que chama de marginalizados.

“Fui à casa dele, o entrevistei e me encantei”, comenta a escritora, que terminou uma biografia sobre o católico e, sem editora para publicá-lo, está fazendo a venda prévia do livro pela internet. Para comprar, só acessar a loja virtual.

O primeiro livro dela, de entrevistas sobre a ditadura militar, se chama "O problema é o medo do medo". Saiu em março de 2016.

“Fui levá-lo de presente a dom Pedro, em uma segunda visita, acompanhada por um tio que sofreu tortura na ditadura militar, motivo que me levou a me interessar por este momento sombrio do país. Ele foi preso, indo ao cinema, na Cinelândia, no Rio, só por ser confundido com um guerrilheiro, não se sabe qual, ficou desaparecido por cinco dias, estava no Doi-Codi”, detalha. O Doi-Codi era a polícia repressiva da ditadura.

“Dá-nos, Senhor, aquela PAZ inquieta/Que denuncia a PAZ dos lucros fartos/A PAZ que nos sacode”

Trecho de "A paz inquieta", de Dom Pedro

Na primeira visita a Dom Pedro, em 2012, Ana Helena encontrou o bispo, que também é poeta, com Mal de Parkison inicial e falando com certa dificuldade. Na segunda, em 2016, já estava de cadeira de rodas e com a fala ainda mais comprometida. Decidiu que faria uma biografia dele e passou quase três anos apurando e escrevendo. Entrevistou pessoas de renome, como Leonardo Boff e Frei Beto, e outras fontes, como o advogado e escritor Fábio Konter Comparato e Modesto da Silveira, também advogado, que defendeu presos políticos na ditadura.

Pretendia lançar a biografia de Dom Pedro, em fevereiro deste ano, quando o idoso completou 90 anos. "Um bispo contra todas as cercas - A vida e as causas de Pedro Casaldáliga" sairia  por uma grande editora, mas a crise financeira alegada pela empresa literária embargou os planos. “Sendo assim, resolvi fazer a venda prévia”, explica.

Na opinião dela, a vida de Dom Pedro vale muito a pena ser contada. O que a surpreendeu é que 300 leitores já se manifestaram, para dar apoio com a compra prévia.

"Há 50 anos, desde que chegou ao Brasil, ele vive na mesma cidade, São Félix do Araguaia. Vive pobre ao lado dos pobres. A partir da ação local, abraçou causas universais. Foi a primeira pessoa pública a denunciar a escravidão contemporânea durante a ditadura militar. Abraçou a causa da Reforma Agrária e a defesa intransigente dos direitos indígenas. Preocupou-se em dar voz ao povo de diversas formas, como, por exemplo, através do jornal Alvorada, que ele criou. É um exemplo a ser seguido se quisermos construir um mundo mais solidário e justo para todos os seres humanos", defende.