‘Não pensei que minha mãe seria tratada igual a um cachorro’, diz moradora de Porto Alegre do Norte em Cuiabá

A agente comunitária de 38 anos disse que a mãe, de 62 anos, piorou devido à falta de medicamentos no PS

Por Karina Cabral- O Livre 14/06/2018 - 00:36 hs

Depois de o marido registrar um boletim de ocorrência relatando o suposto atendimento precário recebido por sua esposa, a paciente Enedina Gonçalves Ferreira, 62 anos, no Pronto Socorro de Cuiabá, a filha da mulher, Kátia Cristina Ferreira, 38 anos, desabafou dizendo que jamais teria trazido a mãe para Cuiabá se soubesse que ela receberia esse tipo de atendimento.

“Eu nunca tinha vindo aqui no Pronto-Socorro de Cuiabá. Não conhecia, só por televisão. Nunca pensei na vida que a minha mãe seria tratada igual a um cachorro, igual a um papel higiênico. Se eu pelo menos sonhasse que era essa coisa aqui, eu jamais teria vindo para cá”, disse a filha da idosa, ao LIVRE.

Com profunda tristeza, a agente comunitária relatou os momentos de desespero que tem vivido com a mãe. Segundo Kátia, ela chegou com a mãe no Pronto-Socorro da Capital no dia 07 de junho (quinta-feira), transferidas de Porto Alegre do Norte (1.160 km de Cuiabá), e se assustou com a quantidade de pessoas “jogadas” nos corredores.

Já na unidade, a idosa foi encaminhada para a “Ala Vermelha” desde o primeiro dia. Mas, segundo a filha, a situação da saúde da mãe só veio a piorar com a transferência para a Capital.

“Eu achei um descaso muito grande o que fizeram com a minha mãe, porque quando a gente chegou aqui pelo menos ela ainda falava. Ela já estava com uma paralisado, só que ela estava falando, estava consciente. Mas, com o passar dos dias, ela ficou sem medicação, sem tomar banho, sem aferir a pressão, sem um acompanhamento mais monitorado”, relatou a filha.

A família relatou no boletim de ocorrência que só foi colocada uma sonda em Enedina no sábado (09) e, ainda assim, ela só recebeu soro através da sonda na segunda-feira (11). E isso só teria acontecido depois que eles registraram uma reclamação na Ouvidoria.

“Eu resolvi pegar o prontuário do médico e ver o que estava prescrito. Quando eu cheguei lá, vi que muitas coisas estavam erradas. Aqui tem coisas que elas colocaram, que deram remédio pela sonda para minha mãe ao meio-dia, sendo que minha mãe colocou a sonda às 23 horas. A minha mãe tinha que estar aferindo a pressão de quatro em quatro horas, tinha que estar vendo os batimentos, a saturação, e nada foi feito”, afirmou Katia.

Ela contou que teme ter percebido o descaso muito tarde, visto que, ao notar o mau atendimento, a mãe já havia piorado.

 

Segundo a família, Enedina ficou por dois dias sem medicação, nem soro (Foto: Kátia Ferreira Coelho)

 

“A mancha na cabeça cresceu, aí só agora eles vieram tomar providência, colocaram ela na lista para ver se sai a vaga na UTI para ela. Mas, e agora? Será que tem chance? Será que não tem? Só Deus sabe. Eu acho que as pessoas têm que ser um pouco mais humanas, tratar as pessoas iguais, não fazer esse pouco-caso que fizeram aqui no Pronto-Socorro”, reclamou a agente comunitária.

Ela afirmou que entende que a situação da saúde está ruim em todo o Estado, mas que acredita que a equipe médica precisa dar mais atenção ao ser humano. “Estão lidando com vida, nós não somos bichos para sermos tratados de qualquer jeito”, disse a mulher, que ainda reclamou que na ala vermelha, onde a mãe está hospedada, há nove pessoas, todas – junto aos acompanhantes – apertadas em um espaço pequeno.

Outro lado

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que a paciente sofreu um AVC no dia 05/06, em Porto Alegre do Norte, e veio transferida para a Ala Vermelha do Pronto Socorro de Cuiabá no dia 07/06. Conforme a assessoria, no prontuário da paciente consta que ela passou pela avaliação do neurologista e fez tomografia no crânio no dia em que chegou e que a tomografia foi repetida no dia 08 de junho.

Conforme consta no prontuário, a mando do médico a enfermeira passou a sonda nasointeral na paciente no dia 10/06 e, antes disso, nos dias 07, 08 e 09, ele teria sido alimentada normalmente, pela boca, mesmo estando bastante fraca. Somente no dia 10, segundo a assessoria, houve a necessidade de alimentação pela sonda.

A diretora do Pronto-Socorro de Cuiabá, Zamara Brandão, disse que no prontuário consta que todos os procedimentos ocorreram dentro da normalidade, mas irá abrir uma investigação para apurar qualquer irregularidade que tenha acontecido e tomar as providências cabíveis. A médica, conforme a assessoria, conversou com o marido da paciente e se colocou à disposição da família.