Suiá ‘invadida’ por pecuaristas do Sul do Pará

Suiá ‘invadida’ por pecuaristas do Sul do Pará

Área indígena Marãiwatsédé (Alto Boa Vista) está sendo ocupada por pecuaristas do Sul do Pará

Por Semana 7 10/06/2018 - 02:18 hs

A terra indígena Marãiwatsédé voltou a ser ocupada por criadores de gado. Dessa vez com anuência da Fundação Nacional do Índio (Funai), conforme noticiou um portal da região (agênciadanotícia). Desde o início do ano a área de pastagens está sendo arrendada a pecuaristas da região e Sul do Pará.

Esses criadores, segundo informações, assinaram contrato de locação de pastos dentro TI Marãiwatsédé, com média de R$ 8 a R$ 10 reais por cabeça. Informações dão conta de que já se encontram na área cerca de 11 mil bovinos. Outros apostam que esta casa ultrapasse a 30 mil, o que renderia aos indígenas algo em torno de R$ 300 mil por mês.

Suiá-Missú, como ficou conhecida mundialmente, passou pelo processo de desintrusão (retirada de povo ilegais de áreas reconhecidas e regularizadas como sendo indígenas) ocorrida em 2013. À época, a Justiça Federal identificou 619 pontos entre residências, comércios como o distrito de ‘Posto da Mata’, além de áreas rurais. Todos tiveram que bater em retirada ou retirados à força para que a TI fosse por vez devolvida ao povo xavante.

Com a decisão da Justiça, o povoado de Posto da Mata deixou de existir. Escolas, posto policial, zona eleitoral, posto de saúde e comércio em geral, foram extintos e, milhares de pessoas tiveram que sair do local e levar consigo os pertences que conseguissem carregar. Algumas pessoas, como era de se esperar, apresentaram sérios problemas emocionais, como depressão, enquanto outras cometeram inclusive suicídio.

Em 2013, o portal da Funai na internet informou que o Incra havia conseguido assentar 30 famílias das 235 da gleba Suiá, (a 8 km de Alto Boa Vista) que haviam sido cadastradas no Projeto Casulo. Segundo noticiou, teriam sido oferecidos outros lotes no assentamento Santa Rita, em Ribeirão Cascalheira, a 178 km do então extinto latifúndio.

Ao que parece, essa queda de braço entre índios e brancos foi em vão ou havia numa das mangas outros propósitos. Se a Funai que lutou até conseguir retirar os invasores da TI Marãiwatsédé para devolver aos seus verdadeiros donos, com o pretexto de cuidar da preservação ambiental e cultural dos índios, por que agora se rende à sanha do lucro e se atira no calabouço da contradição?

Senão, vejamos a declaração no portal da instituição em 2012, feita pelo coordenador regional da Funai em Ribeirão Cascalheira, Alexandre Croner de Abreu, onde diz que “uma suposta invasão é totalmente ilegal e passível de prisão. Esse movimento não tem nenhuma legitimidade”. Ele se referia a uma possível invasão das pessoas recém-retiradas da área e que foi motivo de acirrada demanda no Ministério Público Federal e que culminou com a denúncia de 27 fazendeiros e consequente pedido de R$ 42 milhões para reparação de danos ambientais e recuperação de menos 10 mil hectares de vegetação nativa. A pergunta que não quer calar é se o pisoteio de 30 mil cabeças de gado ajuda recuperar a área?

Sem levar em conta tais agressões ambientais, sob o argumento de evitar queimadas criminosa, a Funai autorizou a Associação Boiú Marawatsede, que representa as seis aldeias da reserva indígena de 165 mil hectares. Destes, 70% são pastagens do antigo latifúndio Suiá-Missú a firmarem contrato de parceria que possibilita a locação da área para pasto.

O cacique xavante Damião garante que existe contrato firmado entre Funai e fazendeiros que ocupam as pastagens de gado, fazem benfeitorias e ao cabo de cinco anos, com o fim do contrato, deixam a eventual infraestrutura (currais, cercas, edificações, outros) para a comunidade indígena local. Damião teria afirmado que o rebanho estimado nas pastagens da reserva são de 11.000 cabeças, mas denúncias dão conta de pelo menos 30.000. O coordenador Alexandre Croner teria confirmado a versão do cacique, a de que os pastos da extinta Suiá-Missú estão sendo alugados através de contratos que foram firmados entre a Associação Boiú Marãiwatsédé.

Ao Semana7, dias depois da matéria veiculada pelo citado portal de Confresa, o coordenador disse ainda que “gostaria de falar, mas preciso respeitar a hierarquia que está em Brasília onde se encontra a documentação”. A redação manteve contatos com a assessoria que ficou de responder as indagações feita por e-mail, mas até o fechamento da matéria não obteve nenhuma resposta.