Infanticídio ainda ocorre no Xingu, mas já é combatido pelos próprios indígenas

Por Jornal O Pioneiro 09/06/2018 - 00:38 hs

Uma menina indígena recém-nascida foi enterrada viva e resgatada pela polícia após 7 horas, em Canarana, na noite de ontem, 05, numa história que é um verdadeiro milagre e está emocionando o Brasil. Um vídeo do resgate, postado na página do Facebook da PM de Canarana, já tem mais de 50 mil visualizações, 2 mil compartilhamentos e quase mil comentários, com muitos comentários cobrando justiça.

A história, assim como emocionou, também revoltou. Mãe e bisavó foram detidas. Elas alegam que a criança nasceu morta, mas a mãe tem 15 anos e, pelo que se apurou, o pai prometeu não assumir a criança, condições que levam, de acordo com a cultura de algumas tribos do Xingu, a matar o recém-nascido, no que é chamado de infanticídio. Pela cultura que ainda permanece em algumas tribos, gêmeos e deficientes também correm o risco de serem enterrados vivos.

Assim como a cultura ainda permanece em algumas tribos ou parcialmente em alguns integrantes, muitos indígenas também não concordam mais com o infanticídio. Nos comentários do vídeo da PM, o indígena Leonardo Mehinako Kamaiurá escreveu o seguinte comentário: “Que maldade gente!!! Decepcionado com a família. Não tenho palavras para descrever essa maldade toda. Mas os envolvidos têm que pagar, não pode usar a desculpa que isso é da cultura. Estamos no século 21, não poderia mais acontecer essas coisas”.

O mesmo sentimento foi expressado por Patricia Nayara Kamayura: “A lei é para todos e tem que serem presos sim! [Família] da criança todos esclarecidos e moradores de Canarana há muito anos, isso não pode mais acontecer! Estamos todos esclarecidos! A lei é para todos, que a PM e a Promotoria de Justiça de Canarana tomem as providências! Essa cultura devemos deixar para trás, ainda mais quando já somos civilizados e esclarecidos”.

Apesar de ainda existirem casos, é importante frisar que a maioria dos próprios indígenas das aldeias que possuíam essa prática estão combatendo o infanticídio.

 Cacique veio pra cidade para salvar filhos gêmeos

Uma reportagem feita pelo J. O Pioneiro e publicada na edição 155, do dia 18 de abril de 2008, contava a história do cacique Tabata Kuikuro. Em 2005, Kakangahu Kuikuro, esposa de Tabata, ficou grávida de gêmeos. “Quando ela ficou sabendo, chorou. Eu também chorei, porque sabíamos do costume da nossa aldeia”, falou o cacique na época, lembrando de um caso idêntico que já havia acontecido em sua família, quando gêmeos, dois cunhados dele, haviam sido enterrados.

Mas Tabata e sua esposa decidiram criar os filhos. “Quando os índios ficaram sabendo, muitos, inclusive lideranças, diziam que isso não podia acontecer. Por isso, decidimos ficar um tempo fora da aldeia”, relatou. Eles vieram morar na cidade para salvar as crianças. Os gêmeos, que foram chamados de Jimi e Siron, nasceram em Canarana no dia 31 de agosto de 2005.

Depois que Tabata teve essa iniciativa, nasceram mais oito crianças gêmeas até 2008, mas a maioria morando fora da aldeia. “Essa bobagem tem que acabar. Isso era costume dos antigos. Não pode matar uma criança indefesa”, colocou Tabata.

Na oportunidade, o Jornal O Pioneiro entrou em contato com Ianaculá Rodarte – coordenador Geral do Ipeax, com sede em Canarana. Conforme Ianaculá, que é da etnia Kamaiurá, a prática do infanticídio é originada dos antepassados. “Naquela época os índios tinham os seus motivos e não havia outra influência cultural”, explicou Ianaculá, colocando, porém, que ele é totalmente contra a prática.


Kakangahu (E) segura Siron e Tabata (D) segura Jimi, filhos gêmeos do casal. Ano 2008. Foto: Rafael Govari – arquivo JOP
 
O milagre da recém-nascida

Uma história revoltante e ao mesmo tempo surpreendente e emocionante ocorreu na noite de ontem em Canarana. Uma bebê recém-nascida indígena teria ficado mais de 7 horas enterrada antes de ser socorrida pela polícia após uma denúncia anônima.

Consta no boletim de ocorrência que uma denúncia anônima informou que uma indígena tinha dado à luz por volta do meio dia de ontem, terça-feira (05), e que por volta das 14h00 teria enterrado a criança num terreno baldio ao lado de sua residência, localizada na Av. Paraná, bairro Nova Canarana. O fato chegou ao conhecimento da testemunha por volta das 20h00, quando então comunicou a polícia.

Policiais militares foram imediatamente até o local indicado e em conversa com a bisavó da criança, a mesma confessou ter enterrado a menina e indicou o local, alegando que a mesma tinha nascido morta por ser prematura. A mãe da criança, de 15 anos, sentiu contrações e deu à luz no banheiro da casa. A bebê teria batido a cabeça no chão e não teve reação após o nascimento, segundo a família. Por ser um costume da etnia, que fica no Xingu, enterraram a criança sem comunicar ninguém.

A PM isolou o local, acionou a PC para que informasse a perícia técnica. Na sequência, os policiais, sob orientação da perícia técnica, foram verificar se o óbito estava confirmado e começaram a escavar por volta das 21h00, quando ouviram o choro da bebê, que foi retirada e levada rapidamente para o Hospital Municipal.

Indagada, a mãe também disse que sua filha nasceu morta. Já outro indígena informou que o pai da criança já teria informado a mãe que não iria assumir sua filha e que já estaria morando em outra aldeia com outra índia, podendo isso ter levado a bisavó e a mãe a terem tentado matar a menina.

O major João Paulo Bezerra, comandante da PM de Canarana, participou do resgate juntamente com os sargentos Oliveira e Fernandes, o soldado Henrique e mais dois investigadores da Polícia Civil. Ele descreveu o resultado da ação como “um milagre”.

“Foi um milagre para todos nós policiais que estávamos lá. Todos ficaram estarrecidos na hora. Nós acreditávamos que a criança estava morta, até pelo tempo que havia se passado. Começamos a cavar onde a bisavó apontou e, para nossa surpresa, ouvimos o choro da criança e continuamos a cavar mais rápido para retirar a criança e levá-la diretamente ao hospital”, contou.

A bisavó da criança, que tem 57 anos, foi autuada por tentativa de homicídio. “Nós autuamos a bisavó por tentativa de homicídio. Ela confessou que cortou o cordão umbilical doa bebê e, por não ter chorado, ela acreditou que a menina estava morta. Ela fez o enterro da bebê na cultura deles, sem comunicar às autoridades. Futuramente a avó poderá responder por participação e a adolescente por um ato infracional”, disse o delegado Deuel Paixão de Santana.

A mãe da adolescente e a mãe da bebê foram ouvidas na delegacia e liberadas. A adolescente está com um quadro de saúde debilitado e com hemorragia. A bisavó deve ser apresentada à Justiça em uma audiência de custódia entre esta quarta e quinta-feira (7). A Fundação Nacional do Índio (Funai) acompanha a situação com a família e a bisavó.

A criança foi atendida pelo Dr. Tiago Bittencourt no Hospital Municipal de Canarana e o médico a diagnosticou com duas fraturas no crânio. Na sequência ela foi encaminhada para o Hospital Regional de Água Boa, onde se encontra com quadro clínico estável, apresentando apenas uma deficiência respiratória discreta. De acordo com a diretora do hospital, Salete Lauermann, estão sendo aguardados os resultados de diversos exames que já foram realizados.