Jorge Picciani iniciou carreira na região do Araguaia; Fiscal pobre em MT, virou empresário e político poderoso no Rio

O que a Cidade Maravilhosa desconhece e o país não tem conhecimento é sobre sua curta passagem por Mato Grosso, aonde chegou pobre e saiu rico exercendo o cargo de fiscal da Secretaria de Fazenda (Sefaz), num período nebuloso daquela secretaria, que além de suspeita de recebimento de propina por fiscais, foi marcado pelo assassinato e o desaparecimento do corpo do fiscal Lauro de Santos Sá, em Rondonópolis.

Por BOA MIDIA 20/11/2017 - 21:46 hs
Foto: O Globo

Jorge Picciani (PMDB) o Rio de Janeiro inteiro conhece; boa parte do Brasil, também.Presidente da Assembleia Legislativa, político que acumula mandatos e o comando do Legislativo fluminense, líder do clã Picciani, que ganha dimensão nacional com seu filho e correligionário Leonardo, deputado federal pelo Rio e ministro do Esporte. O que a Cidade Maravilhosa desconhece e o país não tem conhecimento é sobre sua curta passagem por Mato Grosso, aonde chegou pobre e saiu rico exercendo o cargo de fiscal da Secretaria de Fazenda (Sefaz), num período nebuloso daquela secretaria, que além de suspeita de recebimento de propina por fiscais, foi marcado pelo assassinato e o desaparecimento do corpo do fiscal Lauro de Santos Sá, em Rondonópolis.

“Carioca” era o apelido carinhoso de Picciani, dado por colegas, pois o mesmo nasceu no Rio de Janeiro. Jovem, vibrante, foi aprovado em concurso para a Sefaz. À época o controle administrativo da fiscalização estadual era foi por Delegacias Fazendárias instaladas em cidades estratégicas. O novato foi designado para a unidade de Barra do Garças, divisa com Goiás, que tinha jurisdição 800 quilômetros rumo norte até Vila Rica, na divisa com o Pará.


Ambicioso, segundo colegas da época, Carioca teria visto na política um bom filão para se projetar social e economicamente. No mesmo ano em que desembarcou em Mato Grosso,assumiu uma das coordenações da campanha de seu colega e chefe Pedro Lima a deputado estadual. Lima era do grupo governista do PDS, que tinha como figura central o embaixador Roberto Campos, que se elegeria senador.


Costura dali, costura daqui, Carioca ganhou a simpatia de Campos e de Júlio Campos, que seria eleito governador. Seu empenho na campanha foi levado em conta. Numa noite, na MT-100, entre Torixoréu e Barra do Garças, perdeu o controle da direção de um Fiat 147 de Lima, capotou e ganhou pontos na cabeça – a cicatriz o acompanha.


Pobre, assalariado com baixa remuneração, pois à época os salários da Sefaz eram modestos, Carioca vivia com a família numa Cohab conhecida na Barra por BNH – alusão ao Banco Nacional de Habitação – nas fraldas da Serra Azul. Mas em pouco tempo tudo mudaria.


Lima, seu padrinho político, foi eleito deputado. Carioca o procurou em 1983, pouco depois de sua posse na Assembleia. Choramingou para que o transferisse. Queria trabalhar em Rondonópolis. Conseguiu. Lá sua vida deu a guinada de 180 graus.


À época o cultivo da soja em Mato Grosso girava num raio de 250 quilômetros no entorno de Rondonópolis incluindo Jaciara, Alto Garças, Alto Araguaia, Campo Verde, Primavera do Leste, Poxoréu, Guiratinga, Tesouro e adjacências. Lavoura embrionária na região, a leguminosa que hoje carrega a economia estadual não tinha controle fitossanitário nem tributário.


Comentários da época davam conta de um gigantesco esquema internacional levava soja mato-grossense para o Paraguai via Mato Grosso do Sul, de onde a mesma era exportada como produção paraguaia.  À época a soja era taxada tanto no mercado interno quanto externo; a Lei Kandir e o Mercosul somente seriam criados na década de 1990. Essa mecânica seria blindada por fiscais corruptos dos dois lados da divisa dos estados tendo Rondonópolis como ponto referencial de embarque. Essa transação virava a cabeça de muita gente na Sefaz e em Campo Grande (MS). Carioca estava lotado na cidade que era o pulmão daquilo.


Além da soja que ganhava identidade paraguaia, a Delegacia Fazendária de Rondonópolis tinha o controle do Posto Fiscal Correntes, na BR-163 divisa dos estados, que era e permanece como a maior porta de entrada em Mato Grosso de produtos industrializados em São Paulo e outras regiões. Em 1983 não havia informatização e os fiscos paulista e mato-grossense sequer tinham convênio para controle das segundas vias das notas fiscais. Ouvia-se sem muita preocupação com ressalvas, que fiscais ‘vendiam’ a segunda via fiscal a comerciantes, o que os livrava do pagamento do ICMS – esse tipo de operação era reforçado por um esquema que neutralizava fiscalização in loco com contagem física. Tratava-se um submundo controlado por agentes públicos e empresários.


Carioca passou a ocupar espaço na Delegacia Fazendária de Rondonópolis onde haveria grupos que agiriam na penumbra, mas sem que se entendessem. Em 1984, um dos fiscais que participaria do esquema, Lauro de Santos Sá, simplesmente sumiu. Ninguém sabe o que aconteceu com ele. Em inquérito a Polícia Civil tratou o caso como homicídio com ocultação de cadáver. O Caso Lauro foi tratado com muita ressalva. Rondonópolis, onde ele morava com sua família à Rua Frei Servácio, no bairro Santa Cruz, fez silêncio sepulcral.


Ainda em 1984 Carioca passou a responder por inquérito administrativo na Sefaz. Prudente, ele mandou sua família para o Rio, e ela foi com um integrante a mais: Felipe Picciani, filho de seu primeiro casamento, com Márcia. Felipe é citado enquanto carioca, mas ex-colegas de seu pai sustentam que o mesmo nasceu em Rondonópolis – em Mato Grosso; à época era comum que por questões bairristas moradores oriundos de outros estados registrassem seus filhos nos municípios de onde procediam, e até mesmo carros eram licenciados nos locais de origem de seus donos.


Paralelamente ao inquérito administrativo em Cuiabá, Carioca comprou a fazenda Monte Verde, em Rio das Flores, no sul fluminense, onde passou a criar gado e cultivar café. Monte Verde foi o abre-alas de sua transformação de fiscal de tributos em empresário do setor agropecuário.


Um ano depois da compra de Monte Verde, Carioca deixou Mato Grosso e passou a viver no Rio. Em 1986 deu seu primeiro passo na política tentando ser deputado estadual pelo PDT de Brizola, mas isso é de domínio público. Seu vínculo com a fiscalização estadual mato-grossense estava sepultado tanto quanto a investigação sobre ele. Hoje, sexta-feira, um dos altos servidores da Sefaz e que iniciava a carreira quando as investigações começaram, pediu para não falar sobre o caso, para não ressuscitar fantasmas. Alegou que o caso estava arquivado por prescrição. Alguns colegas de Carioca na Delegacia Fazendária morreram, outros se aposentaram e não moram mais naquela cidade.


Mato Grosso onde a fortuna de Carioca começou é página quase virada para ele. Se não chega a tanto é porque em São Félix do Araguaia a fazenda Agrovás leva a chancela de propriedade do grupo fundado e dirigido pelo presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), Jorge Sayeda Picciani.