Peão há 40 anos, Santos pede a Deus que jovens não permitam a morte do rodeio

“A montaria não é brincadeira. Você precisa usar os equipamentos de segurança, principalmente o capacete. É só pensar que você está lidando com um animal de 900 kg.

Por Carlos Palmeira/Rdnews 20/07/2017 - 23:03 hs
Foto: Carlos Palmeira/Rdnews
Peão há 40 anos, Santos pede a Deus que jovens não permitam a morte do rodeio
Ex-peão Pedro Conceição dos Santos, conhecido como Boiadeira, quer ajudar futuros peões

Em meio às discussões sobre a proibição da realização de rodeios e vaquejadas, quem sobreviveu e ganhou a vida com esses torneios tenta repassar essas culturas para frente. “Eu peço a Deus que os meninos novos que estão entrando nesse ritmo de rodeio não deixem cair. É uma cultura e faz parte da vida de muita gente”, afirmou o ex-peão Pedro Conceição dos Santos, de 59 anos.

O senhor, mais conhecido no meio como “Boiadeiro”, aceitou conversar com o  enquanto observava o movimento na 53ª Expoagro, encerrada no último domingo (16). Entre um gole e outro de cerveja, Boiadeiro contou um pouco de sua história enquanto peão, suas conquistas e sobre como tem feito para não deixar que esses eventos acabem.

Ele explicou que é natural de Lagarto, no Sergipe, e que chegou em Mato Grosso na década de 1970, quando tinha entre 14 e 15 anos. Desde então, trabalha no campo realizando atividades como inseminação de gado e domação. Foi nessa época que ele começou a pegar gosto pela montaria.

Após aprender com o pai os fundamentos da cavalgada, Boiadeiro se especializou e começou a participar de campeonatos anos depois. “Já montei muito em São José do Rio Preto, Rondonópolis, Americana, Jagariúna e só não fui para Barretos porque não consegui classificação. Aquele tempo era muito bom. Tenho muitas lembranças boas”, lembra o senhor de fala simples.

Ele contou ter participado de 30 campeonatos, conseguido várias vitórias e ganhado um bom dinheiro com isso. A maior lembrança, porém, foi de um campeonato em São José do Rio Preto em que disputou a final com um amigo, de nome Jofres. Boiadeiro acabou levando a melhor na disputa.

Com o dinheiro desse certame, o ex-peão adquiriu uma casa no próprio município do interior de São Paulo, onde ele conheceu a ex-esposa, que faleceu recentemente, e onde atualmente moram as suas filhas. Ele é grato por essas vitórias e conquistas que tornaram possível uma vida da família um pouco mais tranquila que a sua. 

Legado

Passado os tempos de glória, o senhor luta para que a cultura que financeiramente melhorou sua condição não acabe pela falta de interesse dos mais jovens. Falta de interesse essa motivada também pelos debates acerca da legalização ou proibição das atividades.

“Rodeio e vaquejada eles não estão querendo mais porque falam que é judiação. Mas não é judiação, é uma diversão. Judiação eu acho que são essas festas que acontecem lá na Espanha onde eles furam e machucam o gado por nada. E os rodeios, na verdade, são uma diversão para o povo. Eu e muitos outros encarávamos como profissão. Eu fui um atleta. A gente vivia disso”, argumenta.

Ele defendeu a atividade explicando que somente animais preparados partem para o brete. Boiadeiro, apesar de reconhecer que o gado é exposto a um alto nível de estresse nas montarias, disse que os bois são treinados durante mais de três anos para que eles possam fazer parte das competições oficiais.

Ele também argumentou que “inclusive, é muito gasto para cuidar do boi. Eles têm até uma academia específica. Eles são profissionais para isso também. Sem contar que a montaria não os machuca”.

Pedro Amatuzzi

Pe�o disputa final do Iron Cowboy em Americana

Peão disputa final do Iron Cowboy em Americana em junho de 2016

Futuro

O ex-peão parou de montar há cerca de três anos após um acidente na arena. Ele contou que na ocasião, estava em cima de um boi até que o animal o derrubou. No chão, uma pequena pedra acabou o acertando no olho esquerdo, o que o fez perder um pouco da visão e impossibilitou de vez a continuidade da montaria, juntamente, ainda, com o fator idade.

Sua missão, de acordo com ele mesmo, é tentar repassar seus conhecimentos adiante e promover o esporte entre os mais novos. Para isso, ele planeja abrir uma escola de rodeio - em sua propriedade localizada a 60 km de Cuiabá, próximo de Chapada dos Guimarães - e no mesmo espaço trabalhar com domação de animais, o que já faz desde sua chegada a Mato Grosso.

Boiadeiro, que já ensina filhos de amigos sobre a importância de se respeitar o animal, comentou que um dos seus principais ensinamentos é a necessidade de se manter a tranquilidade e a concentração.

“A montaria não é brincadeira. Você precisa usar os equipamentos de segurança, principalmente o capacete. É só pensar que você está lidando com um animal de 900 kg. Você também precisa estar bem preparado, fazer academia e respeitar o animal. Isso tudo diminui a chance de acidentes”, comenta.

Experiente no quesito, já que tem uma fratura no pulso, uma na costela, além do problema no olho, o ex-peão lembrou que já perdeu quatro amigos em rodeios. Ele pontuou que não pretende mais ver essas pessoas próximas morendo no exercício da montaria e que para isso quer dar o enfoque na importância da preparação pré-rodeio.

Por último, ele reitera sua preocupação de que aquele evento que ficou tão intimamente ligado a sua vida acabe e que torce para que as autoridades percebam o quanto a atividade é importante para, principalmente, quem mora no interior do país.

“Para ser sincero eu tenho muito medo que tudo isso um dia acabe. Mas vou fazer a minha parte e torcer para que os políticos defendam essa cultura na lei. Apesar de que tenho um pouco de receio quando algo fica nas mãos deles porque não sei se eles sabem o que significa tradição. Eu acho que a verdadeira tradição dos políticos brasileiros é o dinheiro”, finalizou.