Quem avisa, amigo é

Taques: Passadas as eleições, muita gente sairá das sombras para ajudar a derrubá-lo da cadeira, em 2018

Por Eduardo Mahon 26/09/2016 - 03:43 hs

Pedro Taques chega a Rosário Oeste. De longe, já se sabe. Os seguranças avisam ao cerimonial e o cerimonial apressa-se. O governador desce do carro. Uma multidão de jornalistas e simpatizantes o circundam. Todos querem ser vistos. Cumprimentam. O governador não sabe o nome de todos, mas sabe que estão sorrindo. Isso é bom. No caminho, ainda fala com um ou outro.

 

Em seguida, toma o lugar que lhe compete. Palanque, microfone, discursos laudatórios e, por fim, Pedro Taques é anunciado. Palmas. Mais palmas. No entanto, há uma turma minguada que vaia. O clima de festa é turbado por apitos. Alguém saca o celular do bolso. Filma-se o apitaço de meia dúzia de filiados do partido de oposição. O governador responde. Faz graça. Diz que é minoria, que é desimportante como, de fato, seria. Mas acaba não sendo.

 

No dia seguinte, o vídeo de trinta segundos está em todos os grupos de WhatsApp de Mato Grosso. Depois, ganha foro de notícia nos sites da capital. Finalmente, atinge todo o interior.

A fraqueza começa quando o adversário ganha terreno e a crítica não tem resposta. Perde-se o respeito

 

O evento de 1000 pessoas que foi um sucesso é vendido ao grande público como um fracasso, marcado por protestos e vaias. A impressão cresce, toma corpo e contamina a opinião pública. Algo está errado nessa história. Muito errado. Não sei dizer exatamente o que, ou melhor, não sei o porquê. Talvez seja a comunicação social que não humaniza a figura de Pedro Taques. Ele é uma pessoa formal. Não é dado a braços e abraços. Mantem a distância. Não adianta que não vai mudar.

 

Ainda assim, tem índices de aprovação invejáveis. Ocorre que alguma coisa anda cozinhando o governador em banho-maria. O movimento dos servidores públicos que só querem saber das próprias vantagens não basta para explicar esse fenômeno. É algo mais profundo que não está sendo percebido pela equipe. Vou arriscar uma explicação que não chega a ser um chute.

 

Pedro Taques não nasceu no berço político. Ele é um jurista. Passou a vida processando gente, incluindo políticos. Aproveitou-se de um grande movimento de exaustão popular para se apresentar como alternativa válida, ética, diferente. Ganhou. Até aqui, só ganhou. Para senado e, depois, para governo. Ascensão meteórica, sem tropeços, sem erros, sem contratempos. Foi rápido. Taques continua direto, objetivo, seco. Pouco afável. Como Procurador, era adepto da tese “fiat justitia, et pereat mundus”, ou seja, faça-se justiça, ainda que acabe o mundo.

 

Hoje, ao aplicar a mesma lógica da responsabilidade fiscal presente na lei e as demandas do funcionalismo público, por exemplo, quem se acaba politicamente é o próprio Pedro Taques. Os políticos sentem-se intimidados com a presença do governador. No mínimo, desconfortáveis. Talvez pela marcada diferença de trajetória. A base política do governador torna-se dúbia. Vota com o governo, mas não defende o governo. Essa é uma diferença enorme que sinto nos “aliados” do governador. Os deputados, prefeitos, secretários estão nas redes sociais, mas permanecem mudos diante da vaia eletrônica. Estão envergonhados? Não sabem rebater críticas? Foram orientados a não polemizar? Não sei responder.

 

Em resumo, o que acontece todos os dias é exatamente o que se deu em Rosário Oeste: um apoio silencioso e uma oposição barulhenta. Ninguém para defender, para fazer o contraponto, para expor os fatos ou as realizações do governo. No máximo, um ou dois secretários. Ponto final. Essa enorme incapacidade de reação começa a ser interpretada como fraqueza.

 

A fraqueza começa quando o adversário ganha terreno e a crítica não tem resposta. Perde-se o respeito. E, quando se perde o respeito, perde-se tudo. Vejamos o caso da Assembleia Legislativa: são vinte deputados da base e quatro da oposição. O governo não costuma perder. Mas tem algo errado. Os quatro alcançam tanta mídia nas críticas a Pedro Taques quanto os vinte, em estado de confortável catatonismo político. Da tribuna, não se vê uma defesa institucional da maioria que prefere contemporizar. Estranho...

 

Quem precisa de inimigos com amigos assim? Ninguém. O governador que se cuide. Passadas as eleições municipais, muita gente sairá das sombras para ajudar a derrubá-lo da cadeira, em 2018. Dessa gente, há aliados atuais que se transformarão em inimigos. Vomitarão sobre o executivo as frustrações por não terem sido atendidos, as amarguras por tempos de vacas magras, as ambições por mais espaço e, finalmente, a revolta por serem tão diferentes, ao não verem em Taques o costumeiro reflexo deles mesmos. É preciso saber diferenciar o amigo do inimigo. O amigo diz a verdade. O pior inimigo é aquele que espera em silêncio uma oportunidade para dar a punhalada. Não será por falta de aviso. Afinal, quem avisa, amigo é.

 

Eduardo Mahon é advogado.